Fecho os olhos e tento lembrar na íntegra da frase dita por João Soares, no evento que estive no Welwell Center, em Lisboa: “Não vendemos vinhos, vinho você compra na prateleira de qualquer supermercado, tampouco vendemos camas de hotéis.”

Agora você já deve estar pensando, lá vem o restante da frase: vendemos experiências e momentos memoráveis.

Pois o que João Soares complementou no evento que tinha como protagonista a CEO do Malhadinha Nova, sua esposa, Rita Soares, foi o que plantou em mim o desejo de conhecer o projeto da família. O envolvimento de todos, os filhos desenham os rótulos dos vinhos desde os 2 anos de idade, e, o resgate da propriedade comprada e a combinação de sonhar, construir e o trabalhar arduamente para realizar, me encantou.

Mas, se eles não vendem vinho e hospedagem, o que eles vendem então? Depois de passar apenas dois dias, sim, gostaria de ter ficado ali uma vida inteira, o que sobrou foi tentar desvendar o propósito deste projeto. Depois de passear pelos recantos do Malhadinha, provar o café da manhã servido à beira da piscina, degustar o azeite, o mel e os pratos do Jantar Relais Château, fazer a prova de vinhos e dormir no quarto maravilhosamente bem decorado e incrivelmente confortável, e experimentar a hospitalidade, e o bem receber, de quem faz as pessoas sentir-se em casa, pra mim o que a Malhadinha Nova vende é o luxo do tempo e da imensidão.

Uma amiga me chamou na volta da viagem e disse: vamos tomar um café, quero saber tudo, pelas fotos é lindo. Não, as fotos não dizem nada. Não há uma foto sequer que retrate o que vivi, não há um vídeo sequer que mostre a alma do projeto, e, certamente nenhuma das palavras que usarei no texto abaixo vai conseguir retratar o propósito da família Soares, e da Malhadinha Nova.

Então vamos à história. A propriedade de 450 hectares foi comprada pela família em 1998 com o intuito de produzir vinho. A família Soares já atuava no mercado com a Garrafeira que leva o seu nome, desde 1983. Na Herdade havia apenas uma casa e muito espaço. Aos poucos o sonho de fazer vinho foi sendo incorporado ao lugar, à natureza e à biodiversidade. Eles viram ali um novo cenário, então começaram a produzir mel, colher da própria horta, produzir azeite e cuidar dos animais que fazem parte do lugar, como o porco preto, a vaca alentejana, as ovelhas merinas, e os cavalos puro-sangue Lusitano.

Toda a família participa e acredita no que ai estão construindo dia a dia, os filhos, desde pequenos, desenham os rótulos, e a imagem da própria Malhadinha, vaquinha malhada que dá nome ao lugar, é uma graça. De todos os vinhos produzidos na herdade apenas o Malhadinha não tem seu rótulo alterado, os demais sempre passam por alguma transformação, mas a Malhadinha não. Ela é o símbolo de tudo o que eles acreditam.

Em 2008 foi incorporado ao projeto a vertente hoteleira, com o estilo próprio de receber como se estivéssemos em casa. E, aqui não é mais uma vez um clichê. Ao chegar em uma das quatro casas do lugar (Ancoradouro, Pedras, Ribeira e Artes e Ofícios), me deparei com uma mesa de boas-vindas com um dos vinhos da casa, e um dos meus preferidos na prova de vinhos – Antão Vaz Peceguina Branco – uma tábua de charcutaria alentejana, frutas colhidas no pomar, um lindo bilhete e um porta retrato onde uma foto minha com a Rita Soares dava o ar de, cheguei, estou em casa.
Cada espaço da Malhadinha é charmoso, muito bem decorado e preparado para cada ocasião. Há casas somente para casais, que não aceitam crianças, e têm total privacidade, piscina exclusiva e tudo o que você precisa. Há espaços maiores para famílias, espaços compartilhados, mas com total conforto e privacidade. A Casa das Pedras, por exemplo , foi pensada para os casais, com 4 suítes totalmente equipadas, com terraços e piscinas individuais com vista para as belezas alentejanas.
E, por falar em estar em casa preciso contar sobre o atendimento da Malhadinha, ele é preciso, silencioso e exato. Nada está fora do lugar e mesmo quando você só quer relaxar à beira da piscina ouvindo o canto de milhares de pássaros, que parecem ter sido contratados como trilha sonora, eles estão ali, atrás das cortinas e se movimentam ao menor sinal de que você precisa de alguma coisa.

Fiquei hospedada na Casa Ancoradouro, que tem 7 suítes, e é toda branca por fora tem total sinergia com as oliveiras e frutíferas plantadas ao redor, mas o que nos deixa boquiabertos é o charme com que Rita Soares projeta cada detalhe do lugar. A cor é terracota, e esta cor dá o tom de cada objeto, a roupa de cama absurdamente confortável, os amenities na banheira que está charmosamente disposta dentro do quarto, e nas cortinas leves, brancas e esvoaçantes que convidam a ouvir o vento.

Queria ficar ali para sempre, eternizar o momento, mas o Malhadinha Nova é muito mais do que a incrível suíte da Casa Ancoradouro. Há outros espaços igualmente espetaculares e faz parte da experiência um tour guiado. Há também a prova de vinhos, onde conhecemos a história da propriedade, o processo de produção de cada rótulo, a qualidade do processo de vinhos biológicos e únicos, e há também a gastronomia, que me encanta sempre.
O almoço foi à beira da piscina da Casa Monte da Peceguina, propriedade original da herdade e que é cercada por 7 hectares de vinhas. O menu está aberto durante todo o dia e hóspedes de quaisquer outras das casas podem tranquilamente sentar-se ali e saborear um menu diferenciado acompanhado dos excelentes vinhos da casa. Minha escolha foi uma salada de atum e o vinho foi gentilmente escolhido pela Inês, que acompanhou nossa estada do início ao fim.
O jantar foi agendado para que tivéssemos uma experiência incrível no Restaurante com o selo Relais & Châteaux e comandado pelo chef Joachim Koerper, que ostenta duas estrelas Michelin no Eleven, em Lisboa. Não preciso dizer que o jantar foi uma passeio de cor, criatividade e sabor. Com produtos frescos, colhidos da própria horta e com a maestria de uma equipe que entende o conceito de bem receber e da experiência do lugar que é entregue em um prato.
Depois de mais de 2h de jantar, vinhos e um por do sol absurdamente maravilhoso – a época é maio e o sol começa a se por mais tarde por aqui – a volta para a Casa Ancoradouro se dá com o transfer que espera gentilmente na porta do restaurante. O boa noite? Cama arrumada, cortinas fechadas, bilhete com a previsão do tempo para o dia seguinte e um biscoito artesanal. Dormi o sono dos anjos, como há muito não dormia. A imensa cama te abraça, os travesseiros se adaptam perfeitamente ao seu corpo e embalam os pensamentos de agradecimento. Olhando para o teto penso se algum dia na vida eu a havia vivido algo parecido. E, adormeço tendo a certeza de que ainda tenho muito a viver, mas certamente Malhadinha Nova será um marco nesta trajetória.

 

O que mais me encantou em tudo o que vi e vivi? Posso falar do atendimento, das pessoas, dos vinhos espetaculares, das vinhas que se derramam pelo campo, da decoração minimalista e repleta de arte, da louça Vista Alegre (típica daqui), da comida saborosíssima, da piscina com borda infinita, do café da manhã de tirar o fôlego, do azeite, do mel, do por do sol, da informação que é dada por quem atende, por quem cozinha, por quem serve, da beleza dos detalhes, do cheiro, do imenso bom gosto que envolve tudo, da cama, gente, poderia escrever um texto somente sobre o conforto da cama, o som dos pássaros, da recepção do hotel que fica dentro de um bar de vinhos, do menu, do restaurante, do chef e dos ingredientes.

 

Mas, ao fechar os olhos agora e tentar lembrar da experiência na Malhadinha Nova o que me vem à cabeça é a frase de João Soares: não vendemos vinhos ou quartos de hotel. Ao lembrar das cortinas esvoaçantes com vista para o terroir alentejano, só consigo tentar traduzir: o que afinal a família Soares vende?

Eles vendem legado, história, cuidado com o detalhe, com a família reunia ao redor da mesa, experiências, natureza, bem receber e afeto. A Malhadinha Nova vende ver o silêncio, encontrar o amanhecer, ouvir o por do sol, sentir o canto dos pássaros e saborear o cheiro exuberante do paraíso.